Nos últimos anos, o Brasil tem registrado uma tendência de crescimento nos acidentes de trabalho — com impactos profundos não apenas para os trabalhadores e famílias atingidas, mas também para a economia e o sistema de saúde. Em 2025 esse tema ganhou ainda mais evidência. Mas o que motiva esse aumento? Quem são os mais afetados? E que medidas preventivas podem (e devem) ser adotadas? A seguir, análise com dados, causas e caminhos.
Panorama atual e dados estatísticos
De acordo com relatório do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), houve crescimento dos acidentes de trabalho:
• 12,63% de 2021 para 2022;
• 11,91% de 2022 para 2023;
• 11,16% de 2023 para 2024.
Comparando os primeiros semestres de 2024 e 2025, o aumento foi de 8,98%.
No primeiro semestre de 2025, foram registrados cerca de 380 mil acidentes e 1.689 mortes — aumento de quase 9% nos acidentes e cerca de 5,6% nos óbitos em relação ao mesmo período de 2024.
Outro dado alarmante: jovens de até 34 anos concentram 33,63% das mortes por acidentes de trabalho típicos. Isso revela que o impacto se concentra numa faixa de alta produtividade, com consequências sociais e econômicas significativas.
No que se refere à duração dos afastamentos: em 2024, dos acidentes registrados, 61,07% provocaram afastamentos de até 15 dias; cerca de 11,91% resultaram em afastamentos superiores a 15 dias.
Principais causas e fatores de risco
Com base nos dados mais recentes, na literatura e em levantamentos institucionais, seguem alguns fatores que ajudam a explicar a elevação:
1. Fragilidades na gestão de segurança do trabalho
Falhas no uso ou fornecimento de EPIs, treinamento ineficiente ou ausência dele, falta de fiscalização adequada.
2. Aumento da informalidade e precarização
Trabalhadores sem vínculo formal geralmente têm menos acesso a condições seguras, proteção legal, fiscalização e prevenção de riscos ocupacionais.
3. Crescimento de jornadas extensas, pressão por produtividade
Isso inclui fadiga, práticas inseguras para cumprir metas, menos tempo para pausas ou para atenção aos procedimentos de segurança.
4. Setores mais expostos
Construção civil, transporte, saúde e agropecuária são frequentemente citados como os que concentram mais acidentes ou mortes.
5. Saúde mental e doenças relacionadas
Há um aumento nos auxílios-doença ligados a transtornos mentais em ambientes de trabalho. O adoecimento psicológico muitas vezes não é reconhecido oficialmente como acidente ou doença do trabalho.
6. Subnotificação e problemas de registro
Nem todos os acidentes são informados corretamente, por não serem graves ou por falta de reconhecimento de nexo com a atividade laboral. Isso dificulta a formulação de políticas públicas efetivas.
Impactos
Econômicos: custos diretos com atendimento médico, afastamentos, indenizações; custos indiretos com perda de produtividade, substituição de mão de obra, redução de moral dos trabalhadores, seguro etc.
Sociais: sofrimento humano; impactos familiares; efeitos duradouros em casos de invalidez ou sequelas; prejuízos à qualidade de vida.
Para as empresas: aumento de custos, risco reputacional, impacto na retenção de talentos, possíveis sanções legais.
Para o Estado: maior pressão sobre sistema de saúde, previdência e programas de apoio social; necessidade de políticas e fiscalização mais robusta.
Medidas preventivas: o que pode (e deve) ser feito
Aqui vão algumas recomendações, que podem servir tanto para governos quanto para empresas, sindicatos e trabalhadores:
1. Fortalecer instrumentos de segurança existentes
A CIPA (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes) e o SESMT (Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e em Medicina do Trabalho) precisam ter papel ativo, com recursos e autonomia.
2. Capacitação contínua
Treinamentos frequentes, atualizados, inclusive sob novas práticas ou processos. Programas de conscientização desde o momento de contratação.
3. Melhoria dos registros e relatórios
Sistemas unificados;
Incentivos à notificação completa (não só acidentes graves);
Reconhecimento de enfermidades ocupacionais.
4. Políticas públicas e fiscalização
Maior presença dos órgãos de fiscalização; políticas que protejam trabalhadores informais; leis que obriguem o cumprimento de normas de segurança.
5. Atenção à saúde mental
Implantação de programas de prevenção de estresse, depressão, ansiedade no trabalho; reconhecimento de que doenças psíquicas também fazem parte da SST.
6. Promoção de ambientes de trabalho colaborativos e cultura de segurança
Lideranças que valorizem segurança; diálogo constante; envolvimento dos trabalhadores em identificar riscos e soluções.
O crescimento dos acidentes de trabalho no Brasil em 2025 aponta para um alerta que não pode ser ignorado. Não se trata apenas de números, mas de vidas interrompidas, de famílias afetadas, de produtividade perdida e de custos que pesam no bolso do estado e das empresas. E, embora haja desafios (como a informalidade, subnotificação, pressão por produtividade etc.), há também caminhos concretos para reverter a trajetória.
Para quem está no setor de SST, para gestores de empresas ou para qualquer profissional que se preocupe com ambientes mais seguros e saudáveis — este é o momento de agir. Incentivar uma cultura de prevenção, exigir cumprimento de normas, oferecer suporte real ao trabalhador jovem e promover políticas públicas eficazes são medidas que, juntas, podem fazer diferença.
