O que analisar antes de uma perícia trabalhista?

Quando uma empresa recebe a informação de que será realizada uma perícia trabalhista relacionada à insalubridade, periculosidade ou às condições de trabalho, é comum que a preocupação fique concentrada na data da vistoria.

Entretanto, uma boa preparação começa muito antes da chegada do perito.

Antes da diligência, é importante analisar o processo, compreender as atividades discutidas, revisar os documentos de Segurança e Saúde no Trabalho e identificar quais pontos técnicos precisam ser esclarecidos.

É nesse momento que a atuação de um assistente técnico especializado pode contribuir significativamente para a preparação da empresa.

Por que analisar o caso antes da perícia?

A perícia tem como objetivo avaliar tecnicamente as condições de trabalho relacionadas aos pontos discutidos no processo.

Por isso, quanto melhor a empresa conhecer o objeto da perícia, mais preparada estará para apresentar informações consistentes sobre sua realidade.

Uma análise prévia permite identificar:

  • quais atividades serão avaliadas;
  • quais períodos de trabalho estão sendo discutidos;
  • quais agentes ou situações de risco foram alegados;
  • quais documentos são relevantes;
  • quais informações precisam ser confirmadas;
  • quais pontos podem exigir esclarecimentos durante a diligência.

A perícia não deve começar somente quando o perito chega ao ambiente. A preparação faz parte da estratégia técnica.


1. Analise primeiro o processo

O primeiro passo é compreender exatamente o que está sendo discutido na reclamação trabalhista.

Nem toda alegação de insalubridade ou periculosidade corresponde à realidade das atividades desenvolvidas.

É importante verificar:

  • função alegada pelo trabalhador;
  • período trabalhado;
  • atividades descritas;
  • locais onde o trabalhador atuava;
  • agentes de risco alegados;
  • frequência de exposição;
  • existência de pedidos de adicional de insalubridade ou periculosidade;
  • informações apresentadas pela empresa;
  • documentos já juntados ao processo.

Essa leitura inicial ajuda a delimitar o objeto da análise técnica.

Uma pergunta fundamental:

O que o trabalhador afirma que acontecia é exatamente o que acontecia no ambiente de trabalho?

Essa diferença pode ser relevante para a perícia.

2. Conheça a atividade realmente realizada

Um dos principais pontos de atenção é não se limitar ao nome do cargo.

O cargo registrado no contrato de trabalho pode não revelar todas as atividades executadas.

É necessário compreender a rotina real.

Por exemplo:

  • O trabalhador operava máquinas?
  • Realizava manutenção?
  • Fazia limpeza?
  • Manipulava produtos químicos?
  • Entrava em áreas de risco?
  • Realizava abastecimento?
  • Acompanhava abastecimentos?
  • Tinha contato com inflamáveis?
  • Executava atividades com eletricidade?
  • Utilizava equipamentos de proteção?

Também é importante entender com que frequência e durante quanto tempo essas atividades eram realizadas.

Uma atividade eventual pode ter características muito diferentes de uma atividade habitual e permanente.

Por isso, a análise deve considerar a realidade da rotina de trabalho.

3. Verifique os documentos de Segurança e Saúde no Trabalho

Antes da perícia, é recomendável reunir e analisar os documentos relacionados à função e ao ambiente de trabalho.

Dependendo do caso, podem ser relevantes:

  • PGR;
  • Inventário de Riscos;
  • Plano de Ação;
  • LTCAT;
  • PPP;
  • PCMSO;
  • laudos de insalubridade;
  • laudos de periculosidade;
  • avaliações ambientais;
  • fichas de entrega de EPI;
  • certificados de aprovação dos EPIs;
  • registros de treinamentos;
  • procedimentos operacionais;
  • ordens de serviço;
  • registros de inspeções;
  • documentos relacionados a máquinas e equipamentos;
  • fichas de produtos químicos;
  • documentos de controle e manutenção.

Mas existe um cuidado importante:

não basta reunir documentos. É preciso verificar se eles são coerentes com a realidade.

4. Compare os documentos entre si

Um dos problemas que pode surgir durante uma perícia é a existência de informações divergentes.

Por exemplo:

O PPP informa determinada atividade.

O LTCAT apresenta outra condição.

O PGR descreve um terceiro cenário.

E os trabalhadores relatam uma rotina diferente durante a diligência.

Essas divergências podem gerar questionamentos.

Por isso, antes da perícia, é importante verificar se existe coerência entre:

atividade → ambiente → riscos → medidas de controle → documentação.

Essa análise pode identificar previamente pontos que precisam ser esclarecidos ou corrigidos.

5. Analise os riscos relacionados à atividade

Depois de compreender a atividade e os documentos, é importante avaliar tecnicamente os riscos envolvidos.

Dependendo do objeto da perícia, podem ser analisados:

Agentes físicos

Como ruído, calor, vibração e outros agentes previstos nos critérios técnicos aplicáveis.

Agentes químicos

Produtos, substâncias, formas de contato, concentração, frequência e condições de utilização.

Agentes biológicos

Natureza das atividades, ambientes, materiais manipulados e condições de exposição.

Situações de periculosidade

Atividades e operações que possam estar enquadradas nas hipóteses previstas nas normas aplicáveis, incluindo situações envolvendo inflamáveis, explosivos, eletricidade e outras previstas na regulamentação.

O objetivo não é simplesmente identificar se existe algum risco.

É necessário verificar se as condições efetivamente encontradas atendem aos critérios técnicos e legais para caracterização da condição discutida no processo.

6. Verifique o uso e a gestão dos EPIs

Outro ponto importante é analisar os equipamentos de proteção individual.

Não basta apresentar uma ficha de entrega de EPI.

É importante verificar todo o processo:

  • Qual EPI era fornecido?
  • Possuía CA válido?
  • Era adequado ao risco?
  • Havia orientação sobre utilização?
  • Existia treinamento?
  • O trabalhador utilizava corretamente?
  • Havia fiscalização?
  • Existia substituição quando necessária?
  • O equipamento era compatível com a atividade?

A documentação precisa estar alinhada com a realidade.

Durante a perícia, informações inconsistentes podem gerar dúvidas sobre a efetividade das medidas de controle adotadas.

7. Identifique a frequência e o tempo de exposição

Esse é um ponto que merece atenção especial.

Não basta afirmar que determinado trabalhador “teve contato” com um agente ou situação de risco.

É importante compreender:

Com que frequência?

Por quanto tempo?

Em quais condições?

Essa atividade fazia parte da rotina?

Era eventual?

Era uma atividade executada por alguns minutos ou durante grande parte da jornada?

A análise da exposição deve ser feita considerando os critérios técnicos e normativos aplicáveis ao caso.

Por isso, informações genéricas como “às vezes”, “frequentemente” ou “sempre” podem não ser suficientes para uma análise técnica adequada.

8. Analise a área de trabalho

Em determinadas discussões, principalmente relacionadas à periculosidade, a análise do ambiente e da área de risco pode ser fundamental.

É necessário compreender:

  • onde a atividade ocorre;
  • quais equipamentos estão instalados;
  • quais produtos estão presentes;
  • volumes envolvidos;
  • distâncias;
  • delimitação das áreas;
  • procedimentos realizados;
  • frequência das atividades;
  • circulação dos trabalhadores.

Um exemplo comum é o abastecimento.

O simples fato de um trabalhador estar presente próximo a um abastecimento não permite concluir automaticamente pela existência de periculosidade.

É necessário analisar a atividade efetivamente realizada, a exposição e o enquadramento técnico aplicável à situação.

9. Prepare os quesitos técnicos

Após analisar o processo, as atividades e os documentos, é possível identificar quais questões precisam ser esclarecidas durante a perícia.

É nesse momento que os quesitos técnicos ganham importância.

Os quesitos devem ser objetivos e relacionados ao objeto da perícia.

Dependendo do caso, podem abordar:

  • atividades realizadas;
  • agentes identificados;
  • metodologia de avaliação;
  • tempo e frequência de exposição;
  • medidas de controle;
  • EPIs;
  • condições ambientais;
  • caracterização de áreas de risco;
  • enquadramento normativo.

Um bom quesito não deve simplesmente afirmar a conclusão que a empresa deseja.

Ele deve buscar informações técnicas que permitam esclarecer os fatos relevantes para o processo.

10. Prepare as pessoas que acompanharão a perícia

Outro ponto frequentemente negligenciado é a preparação das pessoas que estarão presentes durante a diligência.

É importante que gestores e responsáveis pela área conheçam:

  • as atividades realizadas;
  • a rotina dos trabalhadores;
  • os procedimentos adotados;
  • os equipamentos utilizados;
  • os documentos existentes;
  • as medidas de controle implementadas.

Isso não significa orientar ninguém a alterar informações ou criar uma versão dos fatos.

Pelo contrário.

O objetivo é garantir que as informações apresentadas sejam claras, verdadeiras e compatíveis com a realidade do trabalho.

Checklist: o que analisar antes da perícia?

Antes da diligência, a empresa pode utilizar este roteiro:

  • Analisar a reclamação trabalhista;
  • Identificar exatamente o objeto da perícia;
  • Conhecer as atividades efetivamente realizadas;
  • Verificar o período de trabalho discutido;
  • Levantar os documentos de SST;
  • Comparar PGR, LTCAT, PPP e demais documentos;
  • Avaliar os riscos relacionados à atividade;
  • Verificar os EPIs fornecidos;
  • Analisar frequência e tempo de exposição;
  • Avaliar as condições do ambiente;
  • Identificar possíveis áreas de risco;
  • Preparar quesitos técnicos;
  • Definir quem acompanhará a diligência;
  • Avaliar a necessidade de contratação de assistente técnico.

A importância do assistente técnico antes da perícia

O assistente técnico pode contribuir justamente nessa etapa de preparação.

Seu trabalho não precisa começar no dia da vistoria.

Uma atuação adequada pode envolver:

Antes da perícia:

  • análise do processo;
  • análise dos documentos;
  • avaliação das atividades;
  • identificação dos pontos técnicos;
  • elaboração de quesitos;
  • preparação para a diligência.

Durante a perícia:

  • acompanhamento técnico;
  • observação das condições de trabalho;
  • esclarecimento de informações;
  • registro de aspectos relevantes.

Depois da perícia:

  • análise do laudo;
  • identificação de inconsistências;
  • elaboração de parecer;
  • subsídios para manifestação ou impugnação técnica.

Conclusão

Uma perícia trabalhista não deve ser encarada apenas como uma visita do perito ao ambiente de trabalho.

Ela é uma etapa técnica que exige preparação, informação e organização.

Antes da perícia, a empresa deve procurar compreender o processo, conhecer a atividade efetivamente realizada, revisar sua documentação, analisar os riscos, verificar as medidas de controle e identificar os pontos técnicos que precisam ser esclarecidos.

Quanto melhor preparada estiver a empresa, maior será sua capacidade de demonstrar tecnicamente a realidade das condições de trabalho.

Precisa de apoio antes de uma perícia trabalhista?

A Marcelino Engenharia Segurança do Trabalho atua com assistência técnica para empresas e escritórios de advocacia em demandas envolvendo:

  • Perícias de insalubridade;
  • Perícias de periculosidade;
  • Elaboração de quesitos técnicos;
  • Acompanhamento de diligências;
  • Análise de laudos periciais;
  • Pareceres e manifestações técnicas;
  • Subsídios técnicos para impugnação de laudos;
  • Análise de documentos de Segurança e Saúde no Trabalho.

Não espere o laudo ficar pronto para começar a analisar a perícia.

📩 Entre em contato com a Marcelino Engenharia e avalie a necessidade de suporte técnico para o seu caso.

Marcelino Engenharia Segurança do Trabalho
Assistência técnica e Engenharia de Segurança do Trabalho.

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